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Palavra do cardeal › 23/05/2013

Sopro renovador da Igreja

Há 50 anos, estava em andamento o Concílio Vaticano 2º, que foi interpretado como um “sopro renovador” do Espírito Santo na Igreja. Ele agiu por meio do papa e dos bispos, chamados a desempenhar a sua missão naquela grande assembleia eclesial.

Atentos ao sopro do mesmo Espírito Santo, estamos também hoje procurando discernir o que Deus quer de nós e por onde conduz a Igreja, para que ela continue a cumprir fielmente a missão recebida de Cristo, seu Divino Fundador. E não somente a Igreja deve fazê-lo, enquanto comunidade de fé, mas também cada pessoa, mesmo não crente, é convidada a fazê-lo para a realização da obra boa. O Espírito Santo age onde e como quer e, continuamente, “renova a face da terra”, iluminando as consciências e instigando as vontades para decisões retas e justas.

Com mais razão, as pessoas de fé precisam colocar-se em sintonia com o Espírito de Deus, “derramado em nossos corações”, na busca sincera e na prática do bem. O Espírito Santo “inspira as almas santas e forma os amigos de Deus”, que poderão testemunhar e irradiar a luz de Deus sobre o convívio social. O papa Francisco tem insistido, em suas falas recentes, que os católicos precisam de coragem e vigor no testemunho do Evangelho. A fé cristã não se pode reduzir apenas a um verniz exterior, ou a um vago sentimento interior; ela precisa se tornar operativa na vida concreta. Não basta ser, disse ele, “cristãos de poltrona”, que apenas assistem a tudo como estranhos e desinteressados, sem se envolver na vida e na missão da Igreja.

Na Liturgia de Pentecostes, foi lido um trecho da Primeira Carta aos Coríntios, em que o Apóstolo recorda a ação do Espírito Santo na Igreja; esta é como um corpo, que tem Cristo como cabeça, e muitos membros, que são todos os fiéis da Igreja (cf 1 Cor 12). A vitalidade e as muitas capacidades e funções dos membros procedem do mesmo Espírito de Cristo, cabeça do corpo. Cada membro desempenha a própria função para o bem de todo o corpo. A obra individual de cada membro é suscitada por uma única força vital e não pode faltar para a saúde e o bem de todo o corpo.

Na constituição dogmática – Lumen Gentium -, o Concílio apresenta a Igreja como um grande povo de batizados, um organismo vivo, formado de pessoas com fé em Cristo, agraciadas de toda sorte de dons e graças de Deus, chamadas a irradiar o Evangelho e a vida nova do Reino de Deus, que já se faz presente neste mundo, mas será pleno apenas na eternidade. A Igreja é habitada por Deus, vivificada e animada pelo seu Espírito.

Na Igreja, todos têm a dignidade comum de filhos e filhas de Deus, recebida no Batismo; e cada um tem seu lugar e sua missão, de acordo com o dom, a vocação e a missão recebidos dentro da Igreja. Nem todos fazem a mesma coisa, mas é importante que cada membro da Igreja faça bem a sua parte. Na Igreja, comunidade de discípulos-missionários de Jesus Cristo, todos vivem dos dons da salvação que o Divino Fundador continuamente oferece em abundância para todos através da Palavra e dos Sacramentos; todos são chamados a viver uma vida santa e a testemunhar no mundo a riqueza e a variedade dos dons de Deus.

Ao mesmo tempo, na Igreja, existem os ministros de Deus, revestidos de dons especiais e constituídos para o serviço de Deus e de seus irmãos; eles são membros da comunidade dos fiéis, mas também são animadores e pastores dessa comunidade, em nome de Jesus Cristo, Pastor e Sacerdote de Deus para a humanidade. Há os fiéis que consagram a vida ao testemunho radical do Evangelho, mediante os votos religiosos ou outra forma de especial consagração; dessa forma, ajudam seus irmãos a caminhar mais seguros e estimulados na fé e a perseverem nela.

É sempre o mesmo Espírito Santo que capacita cada um para a realização da própria missão; e assim edifica o conjunto da Igreja na harmonia e na unidade, em que todos contribuem para o bem de todos. A vida da Igreja de Cristo, portanto, não deve seguir o modelo sociológico, mas teológico da comunhão e colaboração. É obra do Espírito Santo que a Igreja se oriente pelo princípio de comunhão, e não pelo de competição ou concorrência. Nisso precisamos continuar a nos renovar na Igreja.

Por Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo




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