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Artigos › 13/04/2018

A missão da Igreja

Jesus se manifestou aos discípulos em várias formas após a Ressurreição. Foram cerca de quarenta dias até sua Ascensão, nos quais o primeiro grupo entreviu a amplidão das tarefas que lhes cabiam. E o Senhor prometeu o Espírito Santo, cuja efusão abundante levou a Igreja primitiva à vida pública, de acordo com os Atos dos Apóstolos (Cf. At 2,1-36). A leitura dos Atos dos Apóstolos ajuda a entender as responsabilidades assumidas pouco a pouco por aquele grupo, certamente limitado, mas envolvido pelo Espírito Santo de ousadia e coragem. Os passos que deram iluminam a Igreja, para redescobrir continuamente as fontes de sua missão e seu método de trabalho. Sabendo que todos eles eram “iniciantes” na arte de viver o cristianismo, a bondade do Senhor lhes ofereceu indicações preciosas que ultrapassam os séculos, chegam aos nossos dias e acompanharão a Igreja até o fim dos tempos. Uma das aparições de Jesus encontra reunidos os discípulos, segundo a narrativa do Evangelho de São Lucas (Cf. Lc 24,35-48), e ali é descrita a missão confiada à Igreja e a todos os cristãos.

Igreja quer dizer convocação, assembleia! Os mesmos discípulos, antes fujões diante da perseguição, agora se encontram reunidos. Será sempre na convocação à assembleia, comunidade que se constitui, que a Igreja manifestará a sua visibilidade em todos os tempos. É ali, onde dois ou mais estão reunidos em nome de Jesus (Cf. Mt 18,20), que ele se mostra vivo. Antes mesmo da pregação explícita da Palavra, sem dúvida essencial, especialmente o nosso tempo se sente tocado pelo testemunho de comunhão e pela caridade! E basta observar que as comunidades cristãs tendem naturalmente a estender os braços do amor recíproco, desejosas de chegarem aos mais distantes e aos mais pobres. Igreja é convocação, assembleia, caridade, serviço aos irmãos!

Os que foram chamados por Jesus são homens e mulheres como todas as outras pessoas. Os primeiros, ao verem o Senhor, pensavam estar diante de um fantasma, estavam preocupados e cheios de dúvidas (Cf. Lc 24,39). Quando ainda não crescemos, temos medo até das sombras! E sombras e “visagens” continuam assustando muita gente. Impressiona o quanto pessoas até com formação técnica ou científica se veem marcadas por medos, superstições e formas primitivas de expressão religiosa, sem chegarem à fé cristã, que significa seguimento de Jesus! O Senhor vem em nosso auxílio, através da lucidez da palavra da Igreja, para levar ao amadurecimento da fé, superação das dúvidas, a serem enfrentadas com honestidade, vitória sobre o medo. Se muitos até de orgulham de ter abandonado a prática religiosa, é bom perguntar honestamente de que prática religiosa se tratava. Quem chega ao seguimento de Jesus não o abandona! Missão da Igreja é formar com lucidez, sem receio diante das interrogações, buscando nas fontes da Palavra de Deus os caminhos a serem percorridos em cada tempo.

O Ressuscitado não é uma ilusão, mas alguém. É cristalina a palavra de Bento XVI: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. No seu Evangelho, João tinha expressado este acontecimento com as palavras seguintes: ‘Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único para que todo o que nele crer tenha a vida eterna’ (Jo 3, 16). Com a centralidade do amor, a fé cristã acolheu o núcleo da fé de Israel e deu a este núcleo uma nova profundidade e amplitude. O israelita fiel reza todos os dias com as palavras que contêm o centro da sua existência: ‘Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças’ (Dt 6, 4-5). Jesus uniu — fazendo deles um único preceito — o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo, contido no Livro do Levítico: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19, 18; cf. Mc 12, 29-31). Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (Cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um ‘mandamento’, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro” (Carta Encíclica Deus Caritas est, 1). Aos discípulos, Jesus se mostra vivo e a missão dos cristãos é reconhecê-lo vivo e comunicá-lo. Ele está na Escritura, nos irmãos, na comunidade reunida para rezar e viver, dentro de cada pessoa, na palavra dos Apóstolos e seus sucessores e na maior exuberância de sua presença, a Eucaristia.

Para entender e praticar o Evangelho, o próprio Jesus continua a abrir a inteligência dos discípulos de todas as gerações, para entenderem as Escrituras (Cf. Lc 24,45-46). Daí a necessidade de a Igreja colocar nas mãos do Povo de Deus a Bíblia, multiplicar possibilidades de Leitura Orante da Palavra de Deus, oferecer as Escolas da Fé, o anúncio explicito do querigma, a modo de Pedro e dos outros nossos mestres primeiros na fé (Cf. At 3,13-19). Cabe à Igreja de nossos dias multiplicar a leitura, a compreensão, a oração e a vivência da Palavra!

A palavra decisiva de Jesus, confiando à Igreja sua missão evangelizadora, é forte e exigente: “Ele abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, e disse-lhes: “Assim está escrito: o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome será anunciada a conversão, para o perdão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de tudo isso”. (Lc 24, 45-47). A mística, o élan unificador da vida da Igreja é o testemunho. A nós cabe a resposta!

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará




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